domingo, 5 de outubro de 2008

Artigo escrito pelo leitor do site oglobo.com, Edison Vieira Pinheiro.

"O destino da cidade dos 'homens-placa'

Neste 5 de outubro vamos às urnas e, desde já, podemos afirmar que este processo eleitoral ganhou a sua "marca própria". Na atual campanha política, temas como camelôs e favelização perderam o glamour. A mais nova tendência eleitoral descarta o debate ideológico: nas eleições de 2008, fashion mesmo é contratar "homens-placa"!

Sim, é bem verdade que era preciso dar solução ao caos visual e à sujeira das eleições passadas, quando os postes e muros estavam "liberados". Mas a sensação é de que passamos a proteger os postes em detrimento dos seres humanos. Numa escancarada denúncia de que este ainda é o país do "jeitinho", esta nociva tática eleitoral domina a cidade.

As esquinas do Rio estão entupidas de pessoas humildes que vendem o tempo de sua existência para substituir... os postes. Trata-se de genuína prostituição eleitoral, com nuances que vão de uma jovem grávida em Bangu que, durante horas, segura um simples galhardete (sob chuva e sol), ao idoso que utiliza um discreto banquinho entre sofisticados e iluminados outdoors nas pistas da Lagoa. A qualidade do material é de primeira, a logística, medieval, e o regime de trabalho, quase escravocrata.

Paradoxalmente, partidos e candidatos - "espertos"- ao mesmo tempo em que promovem este "job", não se envergonham em clamar por cidadania, ética e qualidade de vida. Reforçando esta perspectiva, nós, os eleitores, insistimos em não enxergar o óbvio e preferimos ver "pelo lado bom", acreditando que estas pessoas, ao menos, têm a oportunidade de trabalho temporário durante este curto período.

Peço a atenção dos (e)leitores para o seguinte: os candidatos que contratam "homens-placa" entendem, antes mesmo de eleitos, que os fins justificam os meios. Acreditam que para garantir a exposição de seus números (sim, hoje os números são mais importantes que os nomes e as idéias) em lugares estratégicos, vale comprar pessoas para que sirvam de meros suportes.
Quem sabe, se eleitos, poderão cuidar de regulamentar a "profissão"? Surgirão os cursos profissionalizantes, o plano de carreira (de "assistente de placa jr." à "suporte sênior de painéis") e, até mesmo, os candidatos "vindos de baixo": ontem, um "homem-placa". Hoje, o seu candidato!

Falta pouco para irmos às urnas e julgo importante levantarmos esta reflexão. Vale à pena confiar em quem contribui com este tipo de cenário degradante? O que esperamos é o livre e pleno exercício da cidadania ou uma cidade de "homens-placa"? Eleição passada, serão quatro longos anos de poder e, como a própria propaganda oficial indica, quatro anos é muito tempo!

Este artigo foi escrito por um leitor do Globo. Quer participar também e enviar o seu? Clique aqui

Edison Vieira Pinheiro é cientista social"

Original aqui.

/Mandela

Nenhum comentário: